Mykola Szoma
Poesia Vol. V

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Gervásio
Gervásia era mulher do Gervásio.
Dizia ela ter sonhado um dia
que, no pescoço seu,
tinha dependurado
uma linda pedra de topázio.
Pedra que lhe dera de presente
uma amiga sua -- mais abastada
que era filha de um tal
Sr. Gerásio...
A história do sonho da esposa
incucou a mente do Gervásio.
Não era ele um letrado...
Não tinha muita informação --
só de pedras entendia
as que cobrem,
das estradas cascalhadas,
o mal aplainado chão.
O que me dizes, mulher!?.
Não entro nessa!..
Nos dias de hoje,
nem em sonhos se dá ao luxo
de com pedras preciosas
presentear alguém...
Que estória é essa?
Também, nem imagino
como seria essa tal de pedra!
Topázio? Embora faça uma rima
com o meu nome -- Gervásio,
não acho como poderia ela
-- a bem da verdade,
nas redondezas do meu quintal
fazer uma festa.
Não a deixaria dependurada,
no pescoço da minha Gervásia
-- enfeitando a minha testa.
Não se zomba de um homem
querendo escapulir do rodeio
por uma qualquer fresta!
Mais essa: tal de presente.
Não! Não entro nessa...
Ó, Gervásia! Abra os olhos!
Diga -- lá para amiga sua
que ela desista de convidar-te
para as festas do Sr. Gerásio.
E tem mais uma:
A mulher do Gervásio,
não usa Topázio!..
Já pouco importa
Calor humano... Só?!.
-- Não basta!
Apoio moral não funciona,
quando os laços são quebrados
E, o senso geral comunitário
-- por forma que
pouco importa,
já fora totalmente detonado.
Dizer: Irmão, tenhas piedade!
Tenhas piedade do semelhante.
És tão igual quanto os demais:
-- Caminhes tu sobriamente
a longa trilha da verdade!
E que verdade é essa?
A que desbasta os corações
e dá-lhes a forma de rudeza,
para expressar seus sentimentos?
Que faz pisar as mentes simples,
dos oprimidos pela cultura falsa
-- possuidores de objetos frios.
Decapitando as suas mentes
nos pelourinhos do desamor!
Calor humano só --
transforma-se em cicuta!
Veneno de verde colorido
Um drink saboroso,
refresco perigoso,
que engana a vida,
adormecendo a mente do irmão...
Calor humano só!.. -- Confunde
os sentimentos com a razão.
Já pouco importa eu dizer:
Anigo, tu és um meu irmão!
Porque não basta "amar em falso"
-- Tendo-se diluído em cicuta
da Sociedade o "coração".
Templo vazio
Silente calma envolve o templo.
Irmãos -- de ontem,
não mais conversam entre si...
Desfez-se o laço, que os unia,
Muitos partiram para longe, --
E muito poucos ficaram por aqui.
Os que restaram --
não mais respondem
aos mínimos preceitos exigidos
de irmandade e confraria...
O templo, com seus bancos frios,
não mais atrai a nova membresia.
Silente calma e nada mais.
Quem explicar pudesse o fato?
Por que, dos anos findos,
apenas um lembrar pacato?
Templo vazio dá-me um vazio!
Não passa de uma construção.
Algumas vezes vê-se sentado,
à frente de ninguém --
de poucos, que é quase nada,
alguém dizendo-se ser
um mestre Preletor...
Senhor! Tenha de mim piedade!
Será possível esse "letrado"
não sentir medo de balbuciar
-- coisas não concatenadas,
com as verdades dos escritos
que alimentam os templos
com a vida e o calor?
Silente calma envolve o templo.
Pergunto: Por que, Senhor?!.
Eles dois
Um -- letrado,
Outro -- semi.
Ambos juntos
esvaziaram o salão.
Que saudade
e que tristeza:
Dor no peito que sufoca
a alma e o coração...
Um -- nativo,
outro é gringo de nação.
Os dois não se entendem!
-- Suas linguas
não transitam verbos
de igual conjugação.
Cada qual diz:
Ser mais sábio que outro.
Na verdade, nenhum deles
sábio é...
Caso o fossem,
jamais deixariam diluir-se
-- dos poucos que restaram,
a vontade de curtir a fé.
O salão era uma casa
Se faziam lá:
Encontros comunais,
Assembléias de remidos.
-- Irmãos na fé...
Comungando sonhos reais.
Canções cantando,
orações fazendo e
prestando contas:
Para si e para quem ali
mais viesse consstruir:
Novos sonhos,
agregando mais fé...
Um -- letrado,
Outro -- semi.
Uniram seus esforços
que de sábios nada têm, não!
Desuniram os desejos,
desfazendo a comunia,
profanando a comunhão.
Zeferino
Zeferino era um bom menino.
Tinha seus defeitos,
Como todos os meninos --
da sua idade: Não gostava
de estudar... Só brincava.
Sua mãe dizia-lhe sempre
"Zeferino! Quando vais-te
na escola melhorar?.."
"Tens lição à beça! E
tu queres só brincar?.."
-Ó, mãezinha!
Não te aflijas.
Minhas notas, eu as vou --
até o fim do ano,
de qualquer jeito melhorar.
Por enquanto, deixe eu
assim brincar tranquilo.
Eu não quero me estressar?
Passou-se um ano.
Dois já se passaram.
Passaram três e outros mais.
Coitado do menino,
não conseguia atender
a seus bondosos pais.
Na escola piorava, --
a passos largos,
cada vez mais.
Zeferino não progredia. As
suas notas não melhoravam,
Nessas alturas,
já a raiz quadrada --
por completo, o enquadrou!
Zeferino ler não aprendeu,
Fazer contas não conseguia
E por incrível que pareça,
somar e dividir --
coitado, ainda não sabia.
Os anos passavam pronto...
O Zeferino "envelhecia" --
Criava barba, o seu bigode
pelas orelhas já subia.
Sentado um dia, na varanda
Seu pensamento o cambaleou
-- Desseu aos anos
da sua infância. Chorou...
O filme, em preto-e-branco,
na sua mente perpassou:
Pensou "Porque não obedeci
a minha mãe, foi quando
o mundo todo desabou!".
Perdi tudo o que não tinha
em simples brincadeiras...
E "a mamãe me avisou!"
Hoje não faço contas,
porque não aprendi.
Raiz quadrada me enquadrou!
O que leio, eu não entendo.
Meu linguajar me engana,
como sempre me enganou.
A culpa é de ningém.
-- É minha. A mãe já o falou!
O bicho preguiça
O bicho preguiça desliza
cansado, ao longo do galho.
Curiosos olhares espreitam
atentos. Vêm nele espantalho.
E mais lentamente se move
ainda, o preguiça. Seu peso
- volume excessivo de massa
empresta-lhe a forma e graça...
De um galho a outro, jamais,
desse jeito se pode chegar!
'Desista!'... Bradaram olhares
- "Lerdo assim nunca se viu"...
Inda mais, num galho, pousado
caminhar. Isto é muito gozado!
Teus encantos
Teus encantos,
-- desencantos:
Muitos
prantos...
Tantos quantos são
os teus somados
todos os encantos.
Quanto mais
não te conheço,
mais te conhecer
tenho em apreço.
Desconheço quem tu és,
porque dizes sempre
quem não és!
Quando dizes estar perto,
Na verdade, nem estás!
Pareces um raio:
...zás-trás!..
-- És matéria invisível
que transita, entre
o fato e o possível,
como a sombra refletida
-- em águas turvas
de um agitado mar.
E haja quem tenha vontade
nessas águas a navegar!?.
Eu, por mim,
apenas de longe,
prefiro as observar.
Uma hora:
o mar vai serenar.
E os teus encantos
nas águas marulhentas
-- daquele mar turvo,
ainda vão te sufocar!
Não poderás mais revelar-te --
Não terás como te encontrar!..
Eu, por mim,
apenas de longe,
estarei observando
o mar agitado serenar.
Os abraços
Na volúpia de suspiros,
as carícias se esvairam.
Os abraços,
simples braços,
engastados se aqueceram
-- Desfizeram-se depois
e, de gélidos,
os seus enlaces
se romperam!..
Tantos sonhos que se viveram,
Quantas noites não dormidas
Por entre as nuvens se perderam.
Todavia, as lembranças
não se foram... Se esvairam --
Acompanharam as carícias,
que no vento se diluiram!
Suas raizes cresceram!
Se alojaram firmes
nos ventrículos do peito:
A voz do sonho emudeceram.
O viver da vida enfraqueceram.
Tal como os abraços
com o tempo também se romperam!
Aos nubentes
Nota:
Dedicatória ao casório
do sobrinho da Nélia
(minha esposa)
Aos nubentes, desse casório,
Quero muitos anos de labuta.
-- Que construam
o seu "mini império"
todo revestido de granito...
Adornado com pedrarias:
Raras e ricas --
de muito brilho.
Cravejadas de bordô
e de vermelho...
E que nele,
as noites sejam regadas
-- ao sabor,
com muito vinho!
De sobremesa que
Nunca falte um carinho!
O 21 de junho
que seja lembrado
por mais de mil anos!..
O casal, que se une agora,
Feliz viva com saúde:
Paz, amor e muita prole!..
Que a proteção de Deus
Seja o esteio desse enlace
-- A Sua benção
que sempre os abrace!
Aos convivas da festança
Seja um dia de lembanças
e de mil recordações.
Que a noiva Aparecida e
O noivo Augusto Santos,
Representem com orgulho
-- às crianças,
uma esperança
-- aos adultos,
uma saudade
-- aos idosos,
uma recompensa;
Aos presentes todos
-- pais, irmãos, amigos:
Que essa festa propicie
-- não churrasco,
chopp, cerveja,
guloseimas e que mais...
Uma vida nova:
Aos nubentes e
a todos os demais!
Vagalume
Vaga
lume
-- só
no espaço
noturno,
sem luar,
o vagalume.
Ilumina
com luz pouca
a escura noite
louca...
Na cabeça
parece ter
-- o vagalume,
uma touca.
Só se ve a sua
traseira,
porque brilha,
porque balouça.
Faz lembrar
-- o vagalume,
que a vida existe
quando lume.
Quando a Terra dorme
e a sua luz expande
o brilho, qual perfume,
pode-se saber
que a sombra
de medo some!
Morre de fome...
Na tumba imerge,
dos escombros do dia,
e que se dilui
nas gotas de água...
Nos orvalhos da noite.
Ó, vagalume!
O teu destino é vagar!
Iluminra a noite
com o teu lume.
Abre a janela
Olhe pela janela.
Lá fora, só amplidão
-- Que se esparrama
por cima do arvoredo
-- Que se estende
sobre os penhascos
-- E, que descansa
pelas campinas,
como um tapete,
cobrindo o chão...
Pura grandeza
do infinito,
só poderia ser
a amplidão!
Solene deitada
cobrindo o chão!..
E aqui dentro
-- do lado de cá da janela,
uma noite azul
reverberando o céu...
Teus passos giram
giros sem fim,
como se fossem estrelas
navegando ao léu.
Insignificantes,
mas persistentes,
os teus anseios -- são meus!
São para ti nada,
Para mim tudo:
Quero senti-los todos
nos braços esperançosos meus.
O azul da lua
quer sufocar-te;
Da janela o clarão
que libertar-te!
Não tenhas medo.
Abre a janela --
espie do lado de lá
a amplidão do infinito...
Verás o quanto
o mundo todo é bonito!
De hoje os portais
Heróicos poemas --
grandiloquentes dilemas!
O mundo de hoje --
enormes portais:
De sociologemas e teologemas.
Domínio isigne dos mortais!..
Aplaina todas as almas,
em segundos... Sem deixar
marcas nem sinais!
Diz claro: Todos são iguais!
Debates estóicos...
Sem teses,
Nas arenas da sorte
Consegue a vitória,
o que for mais forte!
Idéias sem vida crepitam
-- Envolvendo em seus sonhos
os milhares de incautos:
Exaustos não mais podem lutar
nem vencer. Sem sorte, dormitam.
Aos olhos do mundo de hoje --
plenamente habitam!..
Não cantam bravios poemas
Nem glórias conhecem
-- Heróis não transitam
em seus cabedais do viver.
São rudes de gênio,
fracos de querer,
constantes no silêncio...
Náuseas inspiram:
Vivem, querendo morrer!..
Não se deve desanimar
Nem sempre se perde
o que se tem por perdido.
Batalha nenhuma e
muito menos
uma esperança.
Esta sempre se alcança!..
Uma esperança tombada,
nas lombadas da estrada,
poderá ser reerguida se
-- depois de aplainada,
a lombada for suprimida.
Nem sempre uma batalha --
que se diz já estar perdida,
poderá ser esquecida!
A vitória poderá, sim:
Ainda que reconstruida,
ter sabor e ser sentida!..
Não há trava permanente
que aguente a força ingente.
Mesmo um pequeno sabiá,
da gaiola jorra o seu canto,
que perturba o sono santo --
de quem o trancafiou lá...
Jamais se rouba uma esperança.
Nem se esquece uma batalha
que tem ares de vitória...
É uma glória de atrevido
estar sempre precavido
de sua visão notótria:
Aplainar lombadas e
vencer guerras que
possam nem ter
cara de vitória.
Armagedon
Eu vi uma pedra rolando
A pedra rolava, rolava:
Parecia caindo dos ceus
-- Da altura do espaço:
despencava do nada,
do etéreo fosco vazio.
Uma bola enorme de fogo
-- Era uma pedra:
Caia, rolando do espaço.
Alguns reis também viram
a pedra caindo.
Junto a Megido lutaram.
Da Sísera ouro queriam;
Mas despojo nenhum, nem
mesmo a prata levaram.
Proclamas se façam:
Dos tempos a guerra
-- a mais esperada,
Chegou!.. Guerreiros!
Vos espera a batalha,
do tipo que a Terra
-- a nossa,
jamais enfrentou...
Derretam-se os arrados;
Forjem-se as espadas,
Depressa, de foices,
se façam as lanças.
Nações levantem-se,
Reunam-se ali --
Armagedon espera!..
O vale de Josafá será a
Sua última quimera...
Ali toneis transbordam
licores de sabor de uva.
Bebam em festa triunfal,
O fim da nossa era!..
Eu vi uma pedra rolando.
Era uma pedra Armagedon.
Nela estava gravado:
"Esta é o ponto final
de toda e qualquer
imaginável quimera".
Aérea pista
Tu és um ascensorista
Manobras, como ningém,
as pistas de ascensão:
Aos picos monumentais,
Dos que buscam
Encontrar uma melhor,
aérea e segura vista.
Dizem ser aquela
uma -- de pouso,
aeropista.
São escaladores
De pedreiras
artificiais: Edifícios,
esconderijos de
humanos sem coração...
Depois de séculos,
perderam de si a noção!
Construiram mausoleus e
neles, dizem
Terem encontrado: a sua
total proteção...
-- Do que?
Também, não têm noção!
São anos de experiência.
Vivência robusta
De extrema paciência
Nutriu a soberba
da tua existência!..
Tu és tudo... Também
És tu nada, não!
Com asas de ferro
-- um condor astuto,
Feriu o teu peito hirsuto!
No reino do norte --
De Aquíleo porte.
Tiveste a sorte
De Morpho helenor Peleides:
Da guarda de Aquiles,
Dos jardins do Achilleion,
Passaste por sobre a morte!
És tu manobrista
das escaladas
de grande ascensão.
Clicando o teclado
A qualquer dia da semana --
Pouco importa o número no mes,
Estás clicando o teclado --
Entre o Cirílico moderno e,
o do Camões -- o Português.
Do sol raiar
Até da lua
um feixe de raios
a crosta da Terra encobrir;
Estarás sempre clicando,
Como se quisesse
-- da estrada, em que pisas,
restos de poeira recolher...
Ungido te sentes.
No trabalho constante --
competir com a deusa Atena,
Terás encontrado
-- no monte Olimpo,
A tua morada perene!
Serás um, junto aos Doze.
Panteão levará o teu nome!
Falarás como a chuva,
ao sabor dos trovões.
Tempestade serás
-- como um raio de fúria.
Voarás como águia,
batendo as asas na Lua...
Da Hera farás a mensagem.
Para os homens darás o recado:
"Basta de atos hediondos!
Chegou ao final da história, a
ação dos segredos de Posêidon"!
Farás da Ártemis uma letrada,
De Apolo, uma noite enluarada e
Cravarás a flecha do amor
No coração da gente desesperada.
A qualquer dia da semana --
Não importa o número no mes,
Terás no monte Olimpo
A tua perene morada!
Justiça injusta
De Rui Barbosa
A mortalha trepidou
-- Mais uma vez
A justiça, de modo injusto,
Pela justiça própria,
Auto-imposta se escamoteou!
Depois de cisalhar
As improbas asas,
De novo as restaurou...
Em nome da justiça mesma,
Uma injustiça outra perpetrou!
De Rui Barbosa
A mortalha,
Corada de tanto pejo,
De novo trepidou.
Sonhador ausente
De segunda a sexta,
Aos sábados e aos domingos,
Mesmo nos dias de feriados;
A qualquer hora do dia
-- pela manhã,
-- à tarde,
-- durante a noite;
Tu esempre estás presente.
Na vida de infortúnio,
do infortunado sonhador,
Que se ausentou do mundo
Para viver ausente,
De todos e de si...
Apenas tu estás presente!
Embora não estando junto,
A vida dele destruiste,
Fazendo dele um robô
-- apenas um vivente:
Escondes nele tu
-- um teu joguete apenas...
Dos teus insípidos desejos,
a fonte de paixão perversa.
Adversa dele és tu;
De ti adverso é ele...
Unidos pela insipidez da vida,
Perderam ambos a noção do belo
-- Juntaram as suas anomalias,
Pensando em construir o começar;
Porém traçaram -- e somente,
o fim da estrada. Ali na frente:
Há uma placa -- "É bom parar!.."
Na fumaça
Queimando os dias
na fumaça de um cigarro.
A sua vida se destrói
-- por nada. A fumaça
que, Apenas em pensamentos,
Dilui todos os sonhos seus.
Fumaça dos sonhos.
Fumaça dos olhos dela.
Da vida -- uma fumaça.
Abraça os dois, enlaça
a esperança nos restos
da fumaça. Deixa nada,
para depois -- para
nenhum dos dois.
Fumaça antes dos encontros.
Restos de fumaça depois.
Na dor do cérebro,
-- por cinzas apagado...
Nada mais resta
que a fumaça,
Um vazio buscando
os encontros insanos
dos dois!
Queimando os dias
na fumaça de um cigarro.
E depois?!.
A Bibliotecária
Dos livros amiga,
Jornais e revistas
São o seu passatempo.
Artigos de fundo
-- da vida os rabiscos,
São os petiscos da sua
Enfurnada, alegre e
Plena de vida mental
-- terrenal existência.
Seus ais são movidos
por exógenos atos
de cronistas sabidos.
Retratos dos outros
que, sem o saberem,
foram adscritos:
Nas páginas brancas,
formando colunas de letras
-- com sabores deliciosos
das marmitas dos papitos.
Fecundas idéias
Sempre são novas estréias!
Abrem umbigo de amigas visões
-- banais e candentes,
Transportam aos astros fatais
Que longe navegam
dos nossos quintais.
Bibliotecária, amiga de livros
Reflete pensares a esmo
E constroi o seu ser unitário
-- emerso de si mesmo.
Assim é a Bibliotecária.
Uma coruja
Uma coruja pousou
no parapeito da janela
-- Um peitoril da vida
do observador atento;
Que busca encontar,
entre os escombros,
o mito existencial.
O mito de todos nós --
de qualquer jeito...
Por entre os dedos
-- dos seus espaços,
Peneira fatos
como lhe aprouver...
Sem dar satisfação
a quem a peça;
Transmuda caos
em harmonia de sons
de uma sinfonia
germânica qualquer.
Uma coruja pousou
no parapeito da janela.
Ouviu acordes desses sons
-- gostou!..
Cantar não soube, mas
Sugeriu uma fermata,
com suspensão do tempo;
E o compasso, enfim,
a todos agradou...
É a coruja regendo
a partitura --
Aquela que o Colombo,
em seu quarteto,
com maestria espanhola,
solenemente "desenhou"!
A coruja pousou
no parapeito da janela
E, ao sabor do seu desjo,
o mundo todo mudou!..
Ela é tia
Ela é tia...
Mas é de maresia
a sua freguesia.
Navega pelos mares secos
procurando -- Vê se acha
algumas gotas de
tempestade... Diz:
"quero montar uma
sinfônica jornada
de sons felizes -- que sejam
uma compacta sinfonia..." É!
Assim ela, que é tia, dizia.
-- Ela é tia,
do mar sem águas,
O que restou da própria maresia.
Ela é tia
esparrama gotas
de acri-doce sabor,
dos respingos das ondas
já desonduladas,
dos secos mares;
Em outros tempos:
navegados por sonhadores
-- Eram senhores
das idéias dos outros:
seus fieis e devedores.
Navegadores não eram,
Também não eram preletores
-- Nos mares turbulentos navegavam
e diziam que tesouros buscavam,
Além dos horizontes; nunca achavam.
Histórias de tufões,
ao som de maresias silentes,
narravam. Todos acreditavam!
Eram eles navegantes.
Errantes...
Farsantes...
Interessantes...
Contavam histórias de maresias
dos mares de águas salgadas --
Hoje são rios apenas:
Susbsistem, graças às tias de maresias
-- resquícios, nos mares secos,
de que eram corpos aquosos de antes.
Assim diz o Senhor
Porque não és gélido
nem quente; Vomitar-te-ei
da minha boca...
Não deixarei que tu sentes
ao meu lado
Nem que tu comas
da minha comida;
Porque tu és indifernte
eu não te conheço,
Jamais contigo
-- por pouco que seja,
partilharei o meu tempo!
Porque tu és indiferente:
covarde, inseguro,
No livro da Vida,
O teu nome não assentarei!
Lançar-te-ei ao fogo eterno
-- o fogo inextingível;
Pela eternidade toda, de ti
Jamais eu lembrarei!
Assim disse o Senhor
dos exércitos...
O dia esmoreceu
Do mar, a ondas adormeceram.
Do ceu, o azul escureceu.
Caiu a noite nebulosa e,
Com seus abraços,
a tudo envolveu.
O dia, que um dia era --
entardeceu, esmoreceu...
Morreu!
O dia cansou de ser iluminado --
Trocou a sua luz pela sombria noite.
Quiz esquecer o bem tanto espalhado,
ao som da ventania e dos tufões;
Quiz sepultar-se por si próprio,
Pra repousar nas surdas noites
dos holofotes artificiais!..
Do mar, as ondas acordaram.
Do ceu, o azul tornou-se mais azul.
A noite nebulosa despediu-se;
Não pode observar os funerais do dia,
Tamanha era a sua agonia:
Ter de observar a morte
daquele em quem
toda a sua existência consistia!
Então, o dia não mais morreu!
Mais uma vez, a noite venceu!
A Águia
A Águia --
Guerreira das liberdades --
veloz e ágil em sua majestade.
Força suprema dos reinados.
Audaz sabedoria escandinava...
Para os gregos,
a luz do sol;
Para egípcios,
o deus da eternidade.
Vigilante e poderosa
-- a força dos astecas,
nas penas dela repousava...
Trovão, o cetro seu,
na imagem de Thunderbird --
Mulher guereira americana
ao rei nativo inspirava!
A Águia --
Guerreira das liberdades --
Reinos espirituais livres
-- no topo das montanhas,
silenciosamente inaugurava!
Pode ser mito, pode ser lenda.
No ar, a supremacia dela
somente pela serpente --
em terra, levemente se igualava!
Enquanto a Águia voava;
A Serpente suavemente deslisava.
Pedro
E Pedro andou sobre as águas.
Não eram águas comuns;
Eram as águas do mar da Galiléia.
Um luar iluminava as suas ondas,
Os galos ainda não tinham cantado,
O Mestre não se dera ao sono
-- o Pedro sentiu-se apavorado...
Nas águas marulhentas do mar
Temeu ele de se ver afogado!
O mar encapelado da Galiléia
tornou-se ainda mais encapelado!..
Se a lua era cheia, dizer não sei,
Mas via-se -- ao longe,
mergulho de peixes se distraindo;
Com suas cambalhotas, as hidras,
de alvos braços,
contra o barco se insurgindo...
E Pedro temeu...
Temeu nas ondas do mar da Galiléia,
Nos braços de uma estrela-do-mar ou
Nos braços de uma marinha centopéia
-- seus dias terminar.
Escureceu!
Estrela cadente lá do ceu despencou!
Pedro andou e desandou...
Temeu as ondas do mar da Galiléia...
Ao som das tempestades,
sob a luz do clarão relampejante,
nas penumbras do medo tombou.
E Pedro clamou: "Mestre! A sorte má,
de mim zombou!.." E Pedro soçobrou.
Pedro andou sobre as águas,
enquanto o galo ainda não cantou...
O Maravilhoso Jesus
Da cicuta da vida, o suco amargo bebeste;
Mergulhaste na inglória existência humana!
Entre os homens, te fizeste um carpinteiro
Com mãos "calejadas" de fome e de sede,
O peso de um sono de insônia viveste --
As dores das dores humanas provaste.
Qual um, dentre nós, te bateste:
Entre astúcias, mentiras e conchavos,
Quiseram manchar o teu nome. Não deram-se!
Mais forte que tudo, foi o teu nome:
Maravilhoso, Conselheiro Deus forte,
Pai da eternidade e Príncipe da Paz!
Porém, não te ouviram... Levaram-te à cruz
Disseram: "Aqui está crucificado Jesus"...
Mais uma vez padeceste... Calvário pisaste
Verteste o teu sangue. Provaste ser Jesus!
Água em vinho transformaste. E hoje
és tu a nossa vida e a nossa luz...
-- Na cruz, a morte derrotaste!
Provaste mais uma vez, que
Só tu és o Filho de Deus
O Maravilhoso Jesus!..
Madeiro em forma de cruz
Madeiro talhado em forma de cruz;
Ao cume do Monte Calvário,
Tu a levaste, Jesus!
De sangue e suor
cinzelaste a Tua fronte...
Fatigaste os joelhos,
os pés machucaste
-- No longo caminho que fizeste
para, sobre o madeiro
em forma cruz, emfim, repousar.
Maria Madalena, ao pé da cruz.
João! -- "De agora em diante,
esta será a tua mãe. Maria! --
este será o filho teu..."
João e Maria, em mãos sentiram
o coração despedaçado...
Fitavam o sangue de Jesus verter:
Os soldados romanos traspassaram
-- Com a lança de um infante,
o lado e o coração de Jesus.
O "crucifragium" não se lhes deu:
Os romanos viram
que Jesus já estava morto --
Foi traspassado, verteu Seu sangue,
Nenhum de Seus ossos, como previsto,
poderia ser quebrado...
"Eis o Cordeiro de Deus".
Segundo Zacarias:
"Olharão para mim,
a quem traspassaram"...
"...e prantearão sobre ele,
como quem pranteia pelo filho;
e chorarão amargamente por ele,
como quem chora amargamente
pelo seu primogênito."
E fitavam a Jesus verter o seu sangue
E aos romanos, de bárbaros trajados,
seu ódio despejar sobre o cordeiro
... esvaído e exangue.
Colina toda espovida, em si fechou-se!
Do verde a cor fugiu,
Os ceus escureceram;
Tornou-se a noite, o pleno dia;
Tremeu a Terra -- Os rios,
em lágrimas se irromperam.
Ao Filho do Criador,
as suas homenagens últimas renderam!..
Ali no alto da Colina,
distante da cidade --
Numa caveira, fincado um madeiro
em forma de cruz e nele cravado,
de braços abertos,
agonizava os seus últimos suspiros
-- o Filho de Deus, o homem Jesus!
Sorrisos perdidos
Estrela encantada brilhava no céu.
Sorrisos perdidos -- no espaço,
vagavam sem véu. Não eram sorrisos;
Eram só risos concisos
-- de ágeis sobreavisos que
flutuavam incisos em faixas
extensas, estendidas ao léu.
Diziam: 'Na beira do mar --
sentada está, uma Quimera
lançando fogo pelas narinas!"
Quem dera-me vê-la, um dia.
Oh, se eu pudera!..
Na beira do mar,
sentada sem lar, a chorar.
-- Estava ela só, a chorar...
Sem ninguém. Observando a Lua --
navegando entre as nuvens,
Talvez, procurando a Quimera,
para com ela as suas mágoas
amenizar ou dissipar.
Ou delas se livrar!..
Encantada, na calada da solidão,
Na beira do mar, a sós a chorar!
Brilhava a estrela, clareava o mar
Viajando a Lua, buscava a Quimera
-- pretendia a dor partilhar:
Com ela que,
sentada à beira do mar,
Espargia sorrisos
sobre as ondas do mar.
A Lua
A orgulhosa Lua, branca e formosa.
Caminha pelas clareiras das montanhas
Seu charme esparge. É toda garbosa!..
No seio das matas. Atravessa oceanos:
-- Conduzindo regatas --
De barcos à vela...
Escrevendo uma história singela
de quem se aventura a enfrentar
as ondas do mar e as suas procelas.
Como se raios de luz vomitasse,
A Lua serena desliza e, num passe,
dos ventos enfrenta o boicote:
Esconde seu pálido rosto
por detrás das montanhas
-- De lá ressurgirá,
Em forma de uma dobradura do tsuru
Para imitar o grou
que um dia a enganou!.. Esqueceu e
Os seus raios luzentes abandonou!
A Lua garbosa, de grande encolheu
Despediu-se da noite... Parecia
uma princesa -- Saindo da corte e
deixando a nobreza, se escondeu:
Por trás das montanhas,
Atravessou os oceanos... Para
Conduzir as regatas de barcos à vela.
A Lua branca e formosa,
com sua pálida face singela,
Serenou o meu coração!
Ucasse
Ucasse coletivo não é opinião.
É antes um prisão preventiva,
dentro dos limites estritos do
-- socialmente, válido ou não.
Mas nem isso deve ser!..
Ucasses são decretos coletivos.
Informalmente pretendem dominar
As idéias, os pensamentos, e
O próprio modo de viver.
Ter opinião,
É ter uma visão própria do mundo.
É situar-se num contexto coletivo
de modo livre e racional:
Viver intensa, decidida, plena e
francamente a problemática
do todo coletivo social... Sentir
-- a fundo, o batuque da vida real.
Ter opinião, é ser participante
nas magnas decisões do coletivo --
Como se fosse sorver
a última gota de orvalho do viver!
Traçar objetivos... Adequar meios;
Enfim, ser cidadão por completo.
-- Sem a ninguém desmerecer!
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Ucasse -- (úcasse, úcase)
Decreto do antigo imperador (o tzar) da
Rússia Imperial: "Úcase imperial"
P. ext. Decisão autoritária, imperativa.
Olhando para o futuro
Montado a cavalho,
olhando para o futuro!
Sem esquecer o passado
Romper as fronteiras!
Vencer as derrotas:
as glórias viver!
Construir o presente,
sem nada temer...
Assim se levanta a sorte!
Assim se constrói o viver
-- sem choro, sem mágoas,
Apenas se vive o dever!..
Montado a cavalo,
olhando o futuro,
sem o passado esquecer!..
Removendo os escombros.
Limpando a poeira --
O pó dos pés sacudir...
Esboçar um leve sorriso,
De quem jamais se deixou
em desgraça se diluir!..
A cavalo, ao futuro seguir.
O passado se foi;
Bem-vindo o por vir.
Kafka revisto
Kafka produto híbrido
de nostalgia,
de desencanto e
de salpicados de ironia.
A faceta de um comediante
sócio-polido de acidez...
Filho de Praga
Pensou Direito, por opção.
De lucidez astuta,
irônico por reação.
Levou a vida de forma
intempestiva --
Transcendendo-a
a qualquer consideração...
No passado heróico,
está a razão de viver.
O presente de lutas,
o passado apenas será.
O futuro incerto,
aos heróis do presente,
efígies memoriais erigirá!
A pátria traída
é a própria loucura sentida.
São os caminhos da vida,
capturados por uma coorte
que se arvora em ser
a única Provedora da sorte!
São caminhos reais como a noite,
imaginários como o insolarado dia
e tortuosos no palmilhar; Todavia,
Belos no sonhar... Embora,
indiferentes no vivenciar!
Na vida sem rimas
sem cantos redomas
cantamos o nosso existir.
Vivemos insentes
na dor mergulhados
viajamos de um ponto a outro
em busca de paz!..
Prazeres
Frustrações
Remorsos
Desencantos -- encantos perdidos
orgulhos feridos.
Deixamos de ser.
Com a Pátria traía, devemos morrer!
O primeiro beijo
A beldroega, na umidade
do nosso primeiro beijo
desabrochou e,
talo a talo, avançou:
Uma paz e a alegria de viver,
no branco-róseo, despontou...
Foram teus olhos meigos
que os meus fitaram.
Foram teus lábios sedutores
que os meus beijaram.
Depois,
ficou tudo tão diferente:
O nosso amor,
como um gervão em flor,
se alastrou.
Nos envolveu,
Tangeu-nos com espinhos-agulha,
Cobriu nosso caminho de cabeça-de-boi.
A beldroega não mais desabrochou.
A folhagem empalideceu, --
não mais encontrou umidade
dos nossos beijos.
Cada pedaço do seu talo feneceu.
A vassourinha, vassoura se tornou
-- Varreu os restos de um amor
que, com o tempo, fraquejou!..
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Espinhos-agulha [espinho-de-agulha] --
Arbusto (Chuquiragua vagans) de flores
esbranquiçadas, com altura que chega até 4m.
Cabeça-de-boi [Stanhopea Insignis]--
Nome popular de uma planta da família das
Orquidáceas de cultivo relativamente difícil
e cuja flor é de curta duração.
Vassourinha [Vassourinha-de-botão] --
Nome popular de uma planta, o mesmo que tapixaba.
Sou um mortal comum
Sou um mortal comum.
Só busco a verdade
Que se afigura-me,
intensa e densamente,
em forma de um poema;
-- Que me coloca
em xeque-mate!..
Não sou um mestre cósmico:
Conhecedor de leis supremas
e de verdades naturais...
Nem sou, tampouco, um ser
errático, de esferas noo.
Não sou algo errante pelos ares
como se fora um átomo qualquer!
Eu sou um ser real e existente.
Um dentre os homens:
Penso, logo existo!
Vivo, sofro... e, sonho também!
Sou um mortal comum:
Nauseabundo vagueio,
pelos escombros seculares
da vida óssea e carnal...
Nas minhas veias corre o sangue
Sangue comum a todos os mortais
-- Não é azul, nem é plebeu;
É sangue escarlate-puro
que se coagula e se dilata,
ao ser tocado pelo fogo...
Aqui -- na terra, sou aprendiz.
Tudo intriga-me,
Desconhecido-me é tudo.
Ao sabor dos vendavais,
das tempestades e dos ventos,
veleja o meu ser apavorado --
Por sobre as ondas dos mares
e das marés -- tento andar:
Procuro equilibrar-me,
para não me afogar...
Ouço mil vozes
de um canto não térreo...
Sonantes vibrações esperam-me lá.
Juntar-me-ei à sintonia daquele canto;
Depois de ter atravessado os mares
-- vencido as águas turbulentas,
das tempestades e dos ventos.
Repousarei -- "ad infinitum", lá!
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noo --
"NOO é uma plataforma experimental,
um novo projeto de mídia diferente
de tudo que você (e a gente) já viu.
Nem tudo que é interessante é NOO,
mas tudo que é NOO é interessante."
Apenas Eu ...
Falaram deuses comigo;
Ouvi a voz de apenas um --
O que Se fez compreender,
sem artimanhas... Dizendo:
Sou Deus dos deuses que,
Desde o princípio, quando
o tempo ainda não existia,
já era Eu o único. Apenas
só Eu e mais nenhum!
Calei-me diante dele.
Diria eu o que?..
Mas a presença Sua --
Insistente,
Mais perturbava-me que
uma brasa ardente;
Pergunta, então, Lhe fiz:
És Deus primevo,
Antes que tudo houvesse,
Tu já exististe; Por que
quiseste fazer as coisas
-- que hoje dão-Lhe
dissabores, e o mal
entre os homens persiste?
Queres saber por que?
Eu lhe direi agora...
Dei liberdade de escolha;
O sentimento de liberdade
que tornasse os homens --
não escravos meus, mas
parceiros da minha
universal "cidade".
Os dissabores e os males,
foram os homens que
inventaram... A liberdade
-- do seu "livre arbítrio"
contra a vontade primeva
dos meus desígnios,
instilaram...